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Entre Cigarros e Vinhos

Quando tu me deixastes busquei ser o melhor de mim. Confesso que fiquei duas ou três noites, não me recordo ao certo, entre vinhos e cigarros tentando descobrir o porquê dessa tua partida repentina, sem motivos muito extensos. Me vestia no teu blusão, me sentava na cama, que antes fora tua, e me alimentava de mágoas, cigarros e vinho barato. Não encontrei um motivo plausível.
A luz insistia em invadir, mas nada iluminava. 
Eu sei que nem tudo na sua vida tem motivo, mas sempre achei que te daria motivos suficientes para me querer sempre ao teu lado. Procurei sempre te oferecer o melhor de mim, esquecendo por muitas vezes que eu também existo. Olho para os esmaltes vermelhos descamando em minhas unhas e lembro do quanto você ria de mim por chegar em uma sexta-feira tão destruída mas dizendo que me preferia assim, pois eu era linda de qualquer forma. Aos sábados me contemplava por ser a mais bela entre todas, apenas por acordar e estar com teu blusão preferido. Você adorava me ver descabelada e da forma mais natural possível. 
Acho que até a minha naturalidade você roubou.
Caminho, deito, entre cigarros e taças encontro tua foto rasgada. Como pode alguém tão especial se tornar algo tão indiferente? Não sei, mas é o estado atual do amor que você dizia sentir por mim. 
Rasguei tudo que era teu por direito. Fotos, cartas, livros favoritos, roupas e esse peito que por tantas vezes deitastes e dizia ser teu e somente teu. Jurava amor eterno como quem jura comprar pão no dia seguinte. 
Como fui tola por cair nas tuas mentiras, mais tolo ainda você por usar de golpes tão baixos!
Não duvido que hoje tu desfiles por aí com essa tua pose marcada pelo egocentrismo e onipotência. Você é grande, mas torna-se baixo perto dos sentimentos pobres que carrega em teu peito e nas falas ensaiadas que tua boca pronuncia. 
Afundo meus dedos na cinza e desfaço o pó, que acaba por se tornar essa sujeira no meu dedo que a água tratará de lavar e levar. 
Levar. 
Deixei que você levasse tudo que era teu, inclusive aquela parte que você dizia amar de mim. Aquela parte que, vendo de longe, nada mais era que uma pessoa submissa aos teus encantos.
E por essas e tantas outras, obrigada.
Obrigada por seres assim, unicamente desprezível. Encantador, mas desprezível. Por despertar em mim esse querer de ser sempre melhor. 
Chorei tua ida, mas comemoro a minha volta.
O dia vai nascer e eu preciso correr para lavar meu cabelo.
A primavera me espera para desabrochar junto com ela. 

Comentários

  1. Tão real.... e sensível.... estou até agora imaginando

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  2. Estou igual a você Manu...ainda imaginando! Lindo Kamilla!

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  3. obrigada, meninas.
    continuem visitando, esse espaço é nosso.
    beijos! :)

    ResponderExcluir

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