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Sobre Sentir

Enterrar os pés na areia era tudo o que ela precisava naquele momento. Seus pés precisavam descansar, pois tinha feito uma caminhada exaustiva até ali. E quando falo ali é num determinado lugar que não precisa ser nomeado, apenas sentido.
Estendeu a sua canga e ficou relaxando por um momento. Nossa! A paisagem era realmente de tirar o fôlego e desafogar qualquer coisa que tenha ficado para trás. Afinal, não caminhou tanto para chegar ali e desabar. Não. Queria descansar, sentir a terra entre os seus dedos, sentir tudo o que não sentia há tempos. Sentiu.
Caminhou um pouco e pôde deixar as ondas baterem entre os seus dedos. Que sensação maravilhosa. Parecia uma criança de quatro anos quando ver o mar pela primeira vez. Excitante! Sentiu vontade de chorar, mas a única água salgada por ali deveria ser a do mar. Continuou caminhando.
Quando falo chorar, não é aquele chorar de angústia, dor, sofrimento. É o chorar de felicidade. Felicidade por saber que sua caminhada dura, árdua e longa tinha resultado em um lugar maravilhoso que só quem sente, entende. Continuou caminhando.
Na verdade, continua caminhando até hoje. A caminhada deve ser algo continuo e árduo. Sentir vai conforme o passar dos tempos e dos dias. Todo sentir tem o seu custo e quando jogamos e aposto um preço muito alto, nos é cobrado com juros altíssimos. Mas creio que faz parte. A vida é um jogo intenso e sem rodeios.
Talvez a paisagem ajudasse em algo. Estava tão cansada que estendeu a canga, deitou e dormiu. O barulho do mar não a incomodava e ela não podia reclamar daquela coisa maravilhosa. Era tudo tão fantástico, tão maravilhoso, tão... tão... novo!
Renovar-se é uma coisa diária e árdua. Arrancar os pedaços e deixá-los para trás, esquecer o esquecido. Tudo isso depende de muito esforço particular e força de vontade. Fazer uma trilha obscura no destino e despontar na mais maravilhosa paisagem. Virar, deitar, aproveitar, sentir. Sentir que, apesar dos pesares, você merece tudo aquilo.
Levantou-se e foi embora. Caminhou na beira do mar na volta. Os passos antigos? Ah, isso as ondas fizeram questão de apagar. Não foi dolorido, pois o tempo faz o que acha certo.  
 Partiu na certeza de uma volta. Porque a vida é isso, é partir na esperança do reencontro, reencontrar para sentir-se renovado, renovar-se para poder sentir novamente.

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