Pular para o conteúdo principal

Questão de Tempo

Sentou-se para arrumar a velha gaveta bagunçada. Precisava ajeitar algumas coisas e eliminar outras. Era uma tarefa difícil, pois se tratava mais do que só uma gaveta, era o seu íntimo que estava em jogo naquele momento. Abriu a gaveta.
Deparou-se com tanta coisa: fotos, cartas, presentinhos, lembranças. Mexer em uma estante empoeirada naquele momento seria mais lucro para ela, pois afetaria somente a sua rinite. Encontrar tudo isso foi meio que um choque. Deparar-se com coisas assim não é fácil pra ninguém, principalmente quando precisamos eliminá-las. Começou a arrumar.
Por vezes ensaiou lágrimas, mas o sorriso tímido tomava conta dos seus lábios e, principalmente, dos seus olhos. Tinha essa pequena manha de sorrir com o olhar. Costumava dizer que os olhos são donos de verdades inenarráveis. Continuou a arrumar.
Separou um amontoado de coisas para jogar fora e, junto daquelas coisas, pedaços do seu ser. Separar-se de coisas assim é o mesmo que jogar parte de você fora. Uma parte que, não importa como, precisa ser renovada. O ser é isso, precisa se renovar para inovar. Começou a arrumar novamente.
Enquanto arrumava a gaveta novamente, sentiu um leve peso sobre os ombros. Deitou-se e fechou os olhos por alguns segundos. Refletiu sobre tudo o que vivera e que viverá a partir de agora. Sua mania de ser certa reprovava certas atitudes que já tinham ficado para trás. Ela precisava sentir que estava seguindo em frente e enfrentar isso era mais difícil do que se imagina. O dia estava meio cinza, o vento balançava a cortina da janela do seu quarto. Ensaiou um cochilo, mas o bate-bate da cortina lhe irritou e fez com que ela abrisse os olhos. Ao abrir os olhos, deparou-se com a luminosidade que um raio tímido de luz refletido no espelho tinha feito no seu quarto. Buscou forças e terminou de arrumar sua gaveta.
Sabia que coisas importantes ficam e o resto passa. Deixa marcas, mas o tempo é encarregado de apagá-las. A paciência tomou conta dela há algum tempo e ela estava feliz por isso. Pegou aquelas coisas e se desfez delas.
Não importa como, não importa o quê. Se tiver que doer, deixa doer. O tempo se encarrega de cicatrizar e ajeitar as coisas, para recolocá-las no seu devido lugar.

Comentários

  1. Respostas
    1. Obrigada, Larissa!
      Sinta-se à vontade.
      Beijos!

      Excluir
  2. Acho que todo mundo tem uma gaveta ou uma caixinha (no meu caso, uma sacola) assim: cheia de fotos, bilhetinhos, lembranças... Coisas que só tem valor pra quem as possui. E só a gente sabe cada pedacinho da gente que vai embora com cada presentinho que se tira da caixa. Manter essa gaveta organizada é difícil, mas imprescindível. E, como sabiamente você escreveu, se tiver que doer, deixa doer. Beijos!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Precisamos sempre arranjar um tempo para colocar esse tipo de coisa no lugar. Difícil, porém necessário.
      Obrigada por visitar e por comentar, Luísa.
      Sinta-se à vontade.
      Beijos!

      Excluir
  3. Mereca sempre me surpreendendo... Que orgulho, que emoção! Manter contato com coisas lindas assim, reforça ainda mais o que realmente vc sabe fazer! Estou a espera de outros devaneios...

    Bjx mê:D

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Mê!
      Espero que você continue me passando essa força e motivação, pois são vocês que me motivam a produzir cada vez mais.
      Beijos!

      Excluir

Postar um comentário

Abrace você também...

Postagens mais visitadas deste blog

sem rumo

Passado o tempo Es pa ço Apressa o passo Rumo Ao Sem rumo. Não há volta, Nem caminhos Tra ça dos Os laços Desfaço Os nós E sigo... Sem rumo Ao
Meu mundo.

Rubi

Se preparava para sair. Era mais uma noite. Mais uma de tantas, mais uma de muitas. Gal Costa em um volume agradável, dizia: “Sou dessas mulheres que só dizem sim”. E talvez ela fosse dessas mulheres que só dizem sim. Um preparo, uma taça de vinho, aquela noite era dela. Apesar de ser uma pessoa diurna, sentia que algumas noites reservavam coisas especiais destinadas para ela. E ela seguia... Ritual de sempre: cabelo, roupa, maquiagem. E o velho companheiro lá, espreitando tudo e esperando para o gran finale. Sabia que sua hora chegaria, sabia que sua hora preciosa de estar naquelas mãos pequenas chegaria e ele aguardava suavemente. Joga o cabelo para cá, amassa de lá. Volume importa! Roupa 1, não Roupa 2, nem pensar Roupa 3, ok. Talvez. Não sabe. Deixa em aberto essa questão. Parte para a maquiagem. Processo chato, processo demorado. Gostava da própria pele, gostava do jeito que a sua pele tinha histórias para contar. Cada sorriso, cada olhar de surpresa, de susto, de alegria, cada ‘cada’ de se…

depois

Das coisas que não devem ficar para depois:
silêncios;
abraços;
palavras;
soluços;
sorrisos;
amor,
amor,
amor.

Eternidade é momento.