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Eu sempre tive a mania de observar as coisas ao meu redor. O faro curioso sempre foi uma das minhas características mais forte. Dizem ser o gênio duro, mas ninguém conhece mais de mim do que eu mesma.
Gostava muito de chegar à janela do meu apartamento e observar por horas a pracinha, no qual a janela do meu apartamento dava vista. Final de tarde era o meu horário favorito. O pôr do sol e uma sensação de falsa paz era algo que me deixava leve e tranquila por, pelo menos, duas horas. Era algo fascinante.
Acho que fica a curiosidade do porquê de eu não descer e aproveitar o final de tarde no parque. É uma coisa que nem eu sei explicar. Creio que ficar de longe e observar as coisas de longe, perceber a sua fragilidade de longe, torna tudo mais fácil de ser compreendido. A dureza do cotidiano e dos lugares rotineiros é algo muito intenso, difícil de ser explicado. Melhor ficar, mais uma vez, de longe. (Desculpem-me pelo uso excessivo da expressão “de longe”).
Num desses dias rotineiros e tediosos, sentei na varanda. O dia estava cinza, meio que chuvoso. Fiz uma xícara de café e sentei por horas, fiquei observando as coisas. Muito mais bonitas nesse dia. Fiquei folheando um livro, mas, embora o dia pedisse uma leitura de um livro qualquer da Clarice Lispector, me faltava certa paciência para o seu uso de epifania. Fiquei mesmo a observar a praça. Estava vazio, o que não era de praxe. Estava muito mais bonita. Porém, aquele dia era pra ser um dia diferente.
As horas passavam devagar, a noite começava a cair. O vento frio vinha de leve anunciar que a noite seria fria e solitária. E eu continuava a olhar a praça. E, de repente, algo me chamou a atenção. Uma moça simpática sentou sozinha num dos bancos da pracinha e ficou olhando o tempo. Olhando, olhando, olhando, procurando. Procurava não sei o quê. Seu choro estava internalizando, mas a sua dor era algo totalmente visível. Seus olhos longe dali avistava e tentava agarrar-se a uma promessa de “dias melhores” que parecia nunca chegar. Suspirou profundamente.
 Observava tudo e a noite se aproximava cada vez mais rapidamente. O vento batia na janela, fazendo um frio desumano. Acho que faltava calor humano, mas não sei explicar em quem. A chuva, aos poucos, começava a cair. Molhava o meu rosto e eu de olhos fixos na moça, que não desgrudava os olhos do tempo. A chuva começou a ficar cada vez mais forte, mais forte, mais forte e a moça não saía dali. Eu queria ajudá-la, mas como? Eu queria fazer algo que realmente pudesse tirar os seus olhos dali, ajudá-la a encontrar suas devidas respostas, tentar desvendar os seus mistérios. Como eu poderia fazer isso, se eu estava procurando coisas que eu não sei o que realmente são. Tentei gritar, tentei alertá-la, tentei de tudo, mas era tudo em vão, estava tudo internalizado.
Isso realmente me chocou.
A chuva cessara. O crepúsculo veio, aquela nuvem negra passou. A noite ficou realmente fria, mas os dias melhores hão de chegar.
Bem em breve.

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