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Despertar

Levantar, lavar o rosto e preparar-se para mais um dia talvez fosse a tarefa mais árdua a ser executada por ela. Era só o começo preguiçoso de mais um dia rotineiro em sua vida.
Abriu os olhos e percebera que o sol já batia na janela do seu quarto, invadindo a sua retina e iluminando parte do seu rosto. Houve uma breve luta entre a vontade de levantar e o peso nos seus olhos. Levantou-se, enfim.
Caminhou por entre os cômodos da casa, procurando encontrar-se. Os ombros um tanto cansados pesavam naquele corpo minúsculo que tentava se equilibrar, as mãos pequenas atingiam os olhos grandes e míopes, mexendo pra lá e pra cá, tentando enxergar coisas além daquela sala pequena e empoeirada. Despertou-se.
Foi ao banheiro para lavar seu rosto juvenil. O contato com o espelho não a agradava muito. Era algo muito estranho. Tocar o próprio íntimo requer muito cuidado e atenção. Evitava o contato direto com o espelho, principalmente por ter medo de olhar no fundo dos próprios olhos. Longe de ser uma Capitu, longe de ter o olhar de cigana oblíqua e dissimulada, mas ouvira certa vez que tinha um olhar profundo e triste, e isso a assustou. Prefiro dizer que a tocou, pois um olhar é dono de verdades inenarráveis. Secou o rosto.
Chegou à cozinha e preparou seu café forte e amargo. Olhava pela janela, contemplando o sol, as nuvens, o céu, a vida... PÁ! A xícara escorregara da sua mão, despedaçando-se em mil pedaços e espalhando aquele café, que se dissipava lentamente. Ficou sem ação, estática e pasma. Abaixou-se lentamente e, como uma ação rápida e única, passou as mãos pelo café derramado e pelos cacos de vidro espalhados. Tentava juntar os pedaços, tentando formar uma nova xícara, tentando dar formato a algo que um dia foi algo.
Tudo se misturava, formando uma coisa só. Pedaços de xícara, café derramado, lágrimas abafadas e secas, e toda a sua vida tomando um formato desconhecido. Convenceu-se de que aquilo não era o melhor a se fazer e juntou pedacinho por pedacinho, livrando-se daquilo que um dia foi algo. Limpou o café com um pano, que foi torcido e mergulhado em água, aos poucos ia se desfazendo e desaparecendo. Suspirou.
Caminhou e seguiu em frente.
O dia, finalmente, amanhecera...

Comentários

  1. A vida às vezes parece nada mais do que isso: pedaços quebrados de uma cerâmica que não conseguimos mais consertar. Mas sempre se descobre que há novos dias e novas xícaras. Beijo, coração.

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  2. A renovação é a coisa mais bela que existe.
    Beijo e continue visitando.

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